baqueteamento digital (ou hipocratismo digital) é um aumento não doloroso do tecido conectivo das falanges distais que frequentemente afeta mais os quirodáctiolos do que os pododáctilos. Usualmente possui apresentação simétrica.

Foi primeiramente descrito por Hipócrates em pacientes com empiema, comentando que as unhas se tornam encurvadas e os dedos quentes, especialmente em sua parte mais distal.

Embora possa ser um achado hereditário, geralmente sugere grave doença subjacente de uma variedade de etiologias.

O Achado

Existem três definições para o baqueteamento: (1) relação das profundidades interfalangeanas maior que 1; (2) ângulo hiponíquio maior que 190º; (3) sinal de Schamroth positivo.

Relação das profundidades interfalangeanas

Caso a relação entre a profundidade interfalangeana (a) com a falange distal (b) seja maior que 1 (b/a > 1), ou seja b > a, pode-se afirmar a presença de baqueteamento digital.baqueteamento-digital-relação-profundidade-interfalangeana

A relação da profundidade interfalageana das pessoas normais é geralmente de 0,895 ± 0,041, assim, uma relação de 1 é maior do que dois desvios padrões.

Ângulo Hiponíquio

O hiponíquio se refere à fina camada da epiderme e faz a ligação entre o leito ungueal e a polpa digital da unha, se este ângulo se encontra > 190º, pode-se afirmar a presença de baqueteamento.

Sinal de Schamroth

Após observar seu próprio baqueteamento surgir e desaparecer após um episódio de endocardite, Leo Schamroth sugeriu em 1976 que os clínicos posicionassem as falanges distais dos dedos equivalentes de cada lado da mão um sob o dorso do outro, e procurar por uma “janela” na região do hiponíquio em formato de diamante (losango). Quando esta janela desaparece, pode-se afirmar a presença de baqueteamento. Comparando com a relação interfalangeana, o sinal de Schamroth apresenta uma sensibilidade de 77 a 87%, especificidade de 90% e valor preditivo positivo de 8, e negativo de 0,2.

sinal-de-Schamroth

Significado Clínico

baqueteamento bilateral adquirido é a forma mais comum, mais frequentemente se inicia no primeiro e segundo quirodáctilo, estando frequentemente associado à doença pulmonar ou cardiovascular. Menos frequentemente ocorre em doenças extratorácicas, como doença inflamatória intestinal, cirrose hepática e neoplasias gastrointestinais.

baqueteamento unilateral adquirido é frequentemente relacionado à lesões vasculares, como shunt periférico, fístula arteriovenosa, ou aneurisma, entretanto, tumor de Pancoast, linfadenite, ou eritromelalgia (doença de Mitchel) também podem a provocar. O baqueteamento de única unha é frequentemente de origem traumática.

Baqueteamento congênito isolado é considerado uma forma incompleta de osteoartropatia hipertrófica primária (OHP). A OHP é uma doença autossômica recessiva resultante da mutação do gene da 15-hidróxi-prostaglandina-desidrogenase (HPGD). Se apresenta em crianças saudáveis apesar do baqueteamento digital, periostose, e manifestações cutâneas, incluindo espessamento da pele na face e escalpo, hiperidrose e seborreia.

CAUSAS COMUNS

Cardiovascular – cardiopatia congênita cianótica, endocardite infecciosa.

Respiratórias – carcinoma pulmonar (usualmente não é de células pequenas), condições pulmonares crônicas (bronquiectasias, abscesso pulmonar, empiema), fibrose pulmonar idiopática.

CAUSAS INCOMUNS

Respiratórias – fibrose cística, asbestose, mesotelioma (fibroso benigno) ou fibroma pleural.

Gastrointestinal –  cirrose (especialmente biliar), doneça inflamatória intestinal, doença celíaca.

Tireotoxicose – idiopática ou familiar (usualmente antes da puberdade).

RARAS

Tumores diafragmáticos neurogênico, gestação, paratireoidismo secundário.

BAQUETEAMENTO UNILATERAL

Aneurisma arteriovenoso bronquico, aneurisma arterial axilar.

Patogênese

O aumento do volume do dígito que sofreu baqueteamento é primariamente devido ao aumento da quantidade de tecido vascular conectivo, entretanto, a causa desta proliferação de tecido fibrovascular ainda é discutida.

De acordo com uma hipótese, o baqueteamento é resultante do aprisionamento de megacariócitos e plaquetas no leito vascular dos dígitos, então liberando fatores de crescimento tecidual.

Normalmente megacariócitos não se apresentam no sangue arterial – eles são liberados pela medula óssea, sendo levados pelo sistema venoso até os pulmões, onde são aprisionados devido ao seu grande tamanho, se fragmentando em pequenas plaquetas.

Na maioria dos pacientes que se apresentam com baqueteamento, ou os capilares pulmonares estão danificados, ou existe um shunt direita-esquerda. Estas anormalidades permitem que o megacariócito trafegue até o sangue arterial, se aprisione nos leitos vasculares dos nossos dígitos, liberando fatores de crescimento tecidual, e assim estimulando a proliferação fibrovascular.

Uma hipótese alternativa, mas não necessariamente conflitante com a anterior, propõe que o baqueteamento surge do aumento da produção de prostaglandina E2 (PGE2) – em indivíduos com osteoartropatia hipertrófica primária (OHP), o catabolismo defeituoso da PGE2 resulta em seu acúmulo.

Referências

  1. McGee S. Evidence-Based Physical Diagnosis. 3rd ed. Elsevier Saunders; 2012.
  2. Talley NJ, O’Connor S. Clinical Examination: A Systematic Guide to Physical Diagnosis. 7th ed. Elsevier Australia; 2014.
  3. Karnath B. Digital Clubbing: A Sign of Underlyign Disease. Hospital Physician. 2003: 25-27.
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